Equinos

Sindrone Navicular em Equinos

Escrito por: Lucas - Publicado em.: 14.10.2022

As alterações musculoesqueléticas são as principais causas de perdas econômicas na equideocultura. Mais de 50% dos equinos apresentam pelo menos um episódio de claudicação durante a vida necessitando de cuidados clínicos como repouso e administração de analgésicos e/ou anti­inflamatórios. Dentre as diversas enfermidades locomotoras dos equídeos, observa-se que grande parte ocorre nos membros torácicos, mais precisamente em regiões distais à articulação cárpica, o que torna o estudo dessas regiões muito importante.

Cavalos que realizam trabalhos duros, como corridas, provas de laço, vaquejadas e prova dos barris, estão especialmente sujeitos à presença de patologias nos membros, tendo como principal a síndrome navicular.

A síndrome do navicular (SN), descrita pela primeira vez em 1752, descreve uma condição clínica, não existindo uma definição universalmente aceita baseada somente em achados patológicos ou radiográficos. A enfermidade foi descrita como uma patologia degenerativa crônica e progressiva que afeta o osso navicular (osso sesamóide distal), bursa navicular e tendões flexores. As lesões da doença do navicular se localizam preferencialmente nos membros torácicos em virtude desses membros receberem uma maior parte do peso

Os cavalos podem apresentar claudicação, lenta e progressiva, com início agudo, relativamente severo e unilateral. Esta patologia é uma das causas mais frequentes de claudicação intermitente, afetando os membros anteriores de cavalos dos quatro aos 15 anos de idade. A Síndrome Navicular (SN) apresenta uma predisposição racial, sendo as raças Quarto de Milha e Puro Sangue Inglês as mais afetadas. Os Cavalos submetidos às atividades em superfícies irregulares ou duras, a concussão é muito aumentada, de modo que a probabilidade do aparecimento da patologia é maior. Uma conformação muito vertical definitivamente aumenta a concussão na região do navicular. O osso navicular transmite uma parte do peso, distribuído pela falange distal.

O osso navicular ou sesamóide distal se encontra palmar à junção das falanges, média e distal e está em contato com ambas. Dentro do casco e quase que totalmente envolvida por ele, se encontra a falange distal ou terceira falange. Ela consiste em um osso esponjoso, que apresenta canais, por onde passam vasos sanguíneos.

A causa exata da doença é desconhecida, sugere se que ocorram tromboses arterial e necrose isquêmica no osso navicular.

A patogenia da doença do navicular está relacionada a alterações biomecânicas

do dígito causadas pela flexão anormal da articulação do metacarpo causando do aumento da pressão arterial dos ossos e ligamentos. durante a fase de propulsão da passada acontece a maior aplicação da força do movimento. Quando a articulação interfalangiana distal sofre extensão, ocorre o aumento da pressão do tendão digital profundo, na face palmar do osso navicular, causando o aumento o contato entre a falange média e o osso navicular incidindo também na elevação da tensão do ligamento sesamóide colateral. Essas forças aplicadas podem sofrer alterações em decorrência da conformação dos membros dos cavalos.

A síndrome do navicular é uma das principais causas de claudicação em equinos, estima-se que a enfermidade seja responsável por mais de um terço de todos os problemas de deambulação de membros torácicos dos cavalos quarto de milha e puro sangue inglês. Essa condição raramente é observada em cavalos árabes e pôneis. A doença do navicular está associada a animais com idades entre quatro e 15 anos, notadamente em animais castrados.

Tem sido demonstrada uma predisposição hereditária devido à conformação dos membros do cavalo ou com a forma específica do osso navicular. Também são considerados fatores como de risco para o surgimento e agravamento da enfermidade, desequilíbrios do casco, ferrageamento inadequado ou irregular e exercícios em superfícies duras. Vários estudos identificaram que o desnivelamento do casco e um ferrageamento errado, predispõem os equinos a alterações patológicas no osso navicular devido ao apoio desproporcional do peso causando um colapso biomecânico das estruturas que sustentam o bulbo e o talão.

Sinais clínicos

Equinos que apresentam síndrome do navicular possuem claudicação crônica

progressiva, que pode ser intermitente nas fases iniciais, com melhoras durante curtos períodos. Quando o animal é levado ao esforço volta a apresentar claudicação. O cavalo alivia a pressão do tendão flexor profundo na área dolorida, apoiando o casco na pinça, ou avançando a pata afetada e tirando os talões do solo. O passo é encurtado e pode haver uma tendência a tropeços.

Não é incomum que um cavalo com doença do navicular desenvolva uma lesão

na região da pinça da sola. Se a sensibilidade na região da ponta da pinça da sola for grave o suficiente, o cavalo passará a andar sobre os talões, uma situação similar à observada na laminite.

Os casos precoces de exostose interfalângica distal bilateral podem provocar sintomas similares aos da doença do navicular, porém os achados típicos do exame com a pinça de cascos e o alívio da claudicação após o bloqueio do nervo digital palmar não são observados. A claudicação em animais com doença navicular apresenta-se por marcha descoordenada e agravamento das dores ao deambular com o passar do tempo. Se ambos os membros estiverem doloridos, o cavalo repousa alternadamente um membro após o outro, estendendo­-a cranialmente (apontando), ou posiciona ambas as patas à frente (acampado de frente).

Diagnóstico

O diagnóstico deve ser realizado por um médico veterinário, sendo apoiado por um anamnese + exames de imagens.

O tipo de anormalidade mais comumente diagnosticado nos ossos naviculares de cavalos com início recente da síndrome é hiperintensidade de sinal na cavidade medular do osso, com ou sem áreas de hipointensidade de sinal na sequências T2­W e DP.

Diagnostico Diferencial

Na laminite, a ação dos “ombros” é semelhante à sua ação na doença do navicular bilateral, mas o animal pisa primeiro com os talões e não com a pinça. A doença do navicular é a causa mais comum de claudicação nesse grupo. A osteoartrite das articulações interfalângicas pode provocar sintomas semelhantes, mas pode ser diferenciada pelo exame com a pinça de cascos, anestesia perineural e exames radiográficos (ADAMS, 1994). Se houver uma artrite da articulação interfalângica distal complicando o quadro, ela pode ser determinada pela anestesia intra sinovial dessa articulação. Quando há inervação acessória originada no nervo digital dorsal, ela pode ser bloqueada por um bloqueio em anel. Esse tipo de inervação acessória torna a neurectomia digital palmar apenas parcialmente eficaz (ADAMS, 1994).

Tratamento

O tratamento para a síndrome navicular não oferece a cura para o animal, contudo algumas estratégias podem ser tomadas com o intuito de reduzir os sinais clínicos. Aproximadamente 65% dos animais apresentam melhorias no seu desempenho e 50% destes ficaram sem dor durante um ou dois anos. O tratamento deve ser baseado de acordo com o grau de severidade da claudicação apresentada, a função do animal, a conformação do casco e a existência de tratamentos prévios. A avaliação da conformação do casco é muito importante no tratamento da patologia. O correto ferrageamento dos animais tem sido uma ótima estratégia terapêutica. O aparo e a ferração tem como objetivo restabelecer o equilíbrio normal do dígito, reduzir as forças biomecânicas na região navicular, sustentar os talões, proteger áreas sensíveis e facilitar o “breakover”.

O casco deve ser corrigido de maneira a manter uma altura de talões ótima e as

pinças curtas, estando assim facilitando o “breakover”. Mudanças radicais na conformação do casco estão associadas ao aumento temporário do grau de claudicação. Pode ser indicado fazer estas correções de forma gradual. O repouso do paciente pode ser também uma boa estratégia para a melhoria da doença do navicular. Embora os possa ocorrer um grau de melhoria da claudicação frequentemente a condição clínica volta a aparecer.

Terapia Medicamentosa

O uso de AINES tem sido proposto como adjuvantes da dor são bem efetivos no controle da dor ( VC PODE ACRESCENTAR NOMES DE MEDICAMENTOS AQUI).

Tratamento intrasinovial

A infiltração da bursa navicular, na maior parte dos casos, leva a uma melhoria

na condição clínica que é visível logo após a infiltração. Um estudo demonstrou que 80% dos cavalos voltam ao trabalho em apenas duas semanas após infiltração.

Cirurgia

A neurectomia do nervo digital palmar continua a ser a técnica cirúrgica mais

utilizada no tratamento de animais com SN. Normalmente é realizada como último recurso quando já todas as outras abordagens terapêuticas falharam. A anestesia digital palmar baixa deve ser sempre realizada imediatamente antes da cirurgia.

Os cavalos com anormalidades do Tendão Flexor Digital Profundo ao nível do Osso Navicular não serão bons candidatos para realização da cirurgia. O prognóstico após a neurectomia apresenta resultados bastante favoráveis, mas que vão regredindo com o passar do tempo.

Os tratamentos de doença navicular tentam reduzir a degeneração progressiva do osso, contudo, eles só possuem caráter paliativo. O correto ferrageamento evitaria a progressão da doença. Um medicamento recente e inovador é o Osphos, composto por bisfosfonatos que reduzem a absorção óssea. Os bisfosfonatos atuam inibindo a reabsorção óssea através da redução do número e da atividade dos osteoclastos. Quando o osso está submetido a estresse ou patologias, o metabolismo ósseo acelera e os osteoclastos são estimulados para que iniciem o ciclo de remodelação. Na sequência, atuam os osteoblastos, porém, a uma velocidade muito inferior. A reabsorção óssea acelerada pode superar o processo de reconstrução óssea em situações de patologia ou estresse ósseo crônicos, incluindo a Síndrome Navicular.

Os fármacos que contêm bisfosfonatos (como Osphos®) regulam o metabolismo ósseo mediante a inibição da reabsorção óssea dos osteoclastos. Deste modo, ajudam a recuperar o equilíbrio entre a atividade dos osteoclastos e osteoblastos. Nos estudos clínicos realizados, 74,7% dos cavalos tratados com Osphos® tiveram uma resposta positiva, contra 3,3% dos cavalos tratados com placebo (p=0,0028). O tratamento foi considerado um êxito se o grau de claudicação na extremidade mais afetada melhorasse em pelo menos um ponto na escala AAEP e não houvesse piora da claudicação na extremidade contralateral aos 56 dias de tratamento em comparação com a avaliação pré-tratamento. Dos 86 cavalos tratados com Osphos®, 8 obtiveram uma melhora de 3 graus na claudicação, 45 melhoraram em 2 graus e 16 melhoraram em um grau 6. A eficácia clínica de Osphos® nos estudos de campo não foi afetada pela ferragem corretiva ou outras terapias para a Síndrome Navicular. A melhora clínica é mais evidente aos 2 meses do tratamento. Dos cavalos que responderam ao tratamento com Osphos® no estudo de campo, 65% mantiveram o seu nível de melhora clínica por até 6 meses. Esse estudo ratifica a importância do uso do Osphod nos tratamentos de Sindrome Navicular.

Lembre-se que nenhuma informação contida neste texto substitui uma consulta com o médico veterinário.

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